Use um casaco velho, mas compre um livro novo (Austin Phelps)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Soneto Patriciano

Olá pessoal! Tudo bem? Hoje segue uma poesia minha! Espero que gostem! Bjs!


Soneto Patriciano

 

Eu achei que ela ia embora.

Mas não.

Resolveu ficar em cima da hora.

E me estendeu a mão.

 

Eu não lhe dava atenção.

Ocupava-me com pormenores.

Tinha preocupações em vão.

Preocupações de adulto são as piores.

 

Ela é paciente e compreensiva.

Calma e mui amiga.

Não exige exclusiva dedicação.

 

Estou falando a esmo,

Mas ela você sabe quem, não é mesmo?

A Inspiração.




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Autopsicografia

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.


(Fernando Pessoa, in Presença, 1932)

domingo, 24 de janeiro de 2021

O Relógio Fugitivo

Oi leitor! Tudo bem? Hoje segue uma poesia minha! Espero que gostem! Bjs!


O Relógio Fugitivo


Todo dia às 19h ele fugia da sala.

Ia para outros cômodos da casa.

Nada mais natural.

Dar uns tique-taques por aí.

Ficar parado no mesmo lugar

é pra quem é relógio de parede ou de pé.

Ele não.

Ele era relógio despertador.

Ele nunca foi normal.

Pra começar era verde.

Era também um objeto de decoração

e parte integrante da família.

Aonde foi parar o relógio?

Está deitado na cama.

Descansando um pouco.

 



domingo, 10 de janeiro de 2021

Se

Olá pessoal! Abrimos hoje as poesias do ano com ninguém menos que Alice Ruiz! Bjs!


Se

se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra

eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto

ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio

daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...

domingo, 20 de dezembro de 2020

Feliz Natal

Oie! Chegamos ao fim do ano e que ano, não é mesmo?! Mas sempre temos o Natal para nos alegrar e revigorar nossas forças! Boas festas e ótimas leituras! Bjs sabor panetone! 


Natal Africano


Não há pinheiros nem há neve, 

Nada do que é convencional,

Nada daquilo que se escreve 

Ou que se diz… Mas é Natal. 


Que ar abafado! A chuva banha 

A terra, morna e vertical. 

Plantas da flora mais estranha, 

Aves da fauna tropical. 


Nem luz, nem cores, nem lembranças 

Da hora única e imortal. 

Somente o riso das crianças 

Que em toda a parte é sempre igual. 


Não há pastores nem ovelhas, 

Nada do que é tradicional. 

As orações, porém, são velhas

E a noite é Noite de Natal.

(Cabral do Nascimento, in Obra Poética, 2003)





domingo, 6 de dezembro de 2020

Na Roça

 Olá pessoal! Tudo bem? Hoje segue um belo soneto de Gonçalves Crespo! Ele que foi filho de escrava e destacou-se também no jornalismo e política. 


Na Roça

Cercada de mestiças, no terreiro,
Cisma a Senhora Moça; vem descendo
A noite, e pouco e pouco escurecendo
O vale umbroso e o monte sobranceiro.

Brilham insetos no capim rasteiro,
Vêm das matas os negros recolhendo;
Na longa estrada ecoa esmorecendo
O monótono canto de um tropeiro.

Atrás das grandes, pardas borboletas,
Crianças nuas lá se vão inquietas
Na varanda correndo ladrilhada.

Desponta a lua; o sabiá gorjeia;
Enquanto às portas do curral ondeia
A mugidora fila da boiada...


sábado, 21 de novembro de 2020

E o Mundo Parou

E o mundo parou.

E as encomendas não foram entregues.

E os encontros foram cancelados.

E as festas do vizinho cessaram.

E foram atropelados negócios,

passeios, férias,

relacionamentos, casamentos.

E todo mundo ficou em casa.

Uns se agarraram à televisão,

outros ao terço.

Uns devoraram comida,

outros livros.

E o real cedeu lugar ao virtual.

E tudo foi adiado.

Tudo.

E a vida foi adiada ou parou.

Felizes os que são pequenos demais para entender.

(Patricia Muzzi). 




domingo, 8 de novembro de 2020

Meu Destino

Olá pessoal! Hoje segue uma poesia de Cora Coralina! Aproveitem! Bjs!


Meu Destino

Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida…
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida…

domingo, 25 de outubro de 2020

Palavras Bonitas

E aí pessoal, tudo bem?! Hoje segue uma poesia minha. Espero que gostem! Bjs!


Palavras Bonitas


Anotei algumas palavras bonitas

para usá-las quando compusesse.

Porém as palavras bonitas

em nada se encaixavam:

umas tristes, outras sem graça,

muito rebuscadas ou lascivas mesmo.

Pensei até em servir-me das palavras bonitas

de uma só vez, por mais espantoso que ficasse.

Ah...

Já não sei mais o que fazer com as palavras bonitas.

Aliás, vou passar a chamá-las de palavras imprestáveis.




sábado, 10 de outubro de 2020

Duas Dúzias de Coisinhas à Toa que Deixam a Gente Feliz

 Olá você! Já que se avizinha o dia das crianças, segue uma poesia infanto-juvenil de Otávio Roth. Vamos ler?! Bjs!


Duas Dúzias de Coisinhas à Toa que Deixam a Gente Feliz 

Passarinho na janela,
pijama de flanela,
brigadeiro na panela.

Gato andando no telhado,
cheirinho de mato molhado,
disco antigo sem chiado.

Pão quentinho de manhã,
drops de hortelã,
grito do Tarzan.

Tirar a sorte no osso,
jogar pedrinha no poço,
um cachecol no pescoço.

Papagaio que conversa,
pisar em tapete persa,
eu te amo e vice-versa.

Vaga-lume aceso na mão,
dias quentes de verão,
descer pelo corrimão.

Almoço de domingo,
revoada de flamingo,
herói que fuma cachimbo.

Anãozinho de jardim,
lacinho de cetim,
terminar o livro assim.



sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Nada Duas Vezes

Oi pessoal! Hoje segue uma poesia de Wisława Szymborska e, de brinde, um vídeo com ela! Aproveitem!


Nada Duas Vezes

Nada acontece duas vezes
nem acontecerá. Eis nossa sina.
Nascemos sem prática
e morremos sem rotina.

Mesmo sendo os piores alunos
na escola deste mundão,
nunca vamos repetir
nenhum inverno nem verão.

Nem um dia se repete,
não há duas noites iguais,
dois beijos não são idênticos,
nem dois olhares tais quais.

Ontem quando alguém falou
o teu nome junto a mim
foi como se pela janela aberta
caísse uma rosa do jardim.

Hoje que estamos juntos,
o nosso caso não medra.
Rosa? Como é uma rosa?
É uma flor ou é uma pedra?

Por que você tem, má hora,
que trazer consigo a incerteza?
Você vem – mas vai passar.
Você passa – eis a beleza.

Sorridentes, abraçados
tentaremos viver sem mágoa,
mesmo sendo diferentes
como duas gotas d’água.

Trad.: Regina Przybycien


domingo, 13 de setembro de 2020

Prima Vera

Oii! Hoje segue um soneto meu!! Espero que gostem! Bjus!


Prima Vera


Prima Vera está a chegar.

Conosco três meses vai ficar.

Ninguém aqui duvida

que virá com roupa bem colorida.

 

Ela gosta de uma prosa.

Linda, cheirosa e vaidosa.

Sempre conquista admiradores

e adora flores.

 

Seu humor varia bastante.

Tem dias que está radiante

e outros bem fria.

 

Mas nesse vaivém,

não há quem não a queira bem.

Vem, Prima Vera, vem!





segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Canção para Poder Viver

Olá pessoal! Hoje segue uma bela poesia de Cassiano Ricardo, que foi jornalista, poeta e ensaísta! Bjs!


Canção para poder viver

Dou-lhe tudo do que como,
e ela me exige o último gomo.

Dou-lhe a roupa com que me visto
e ela me interroga: só isto?

Se ela se fere num espinho,
O meu sangue é que é o seu vinho.

Se ela tem sede eu é que choro,
no deserto, para lhe dar água:

E ela mata a sua sede,
já no copo de minha mágoa

Dou-lhe o meu canto louco; faço
um pouco mais do que ser louco.

E ela me exige bis, "ao palco"!

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Versos em Gotas II

Versos em Gotas II

De chofre as palavras começam a surgIr
e vêm nas horas mais iNcertas.
OraS!
Para laPidar,
para ilumInar,
dicionáRio à mão.
Cada uma exige tAnto... 
Não querem nada além da perfeiÇão.
ExaustÃo.
E ainda exigem O se despir em frente ao leitor.

(Patricia Muzzi)



domingo, 26 de julho de 2020

Versos em Gotas

Ontem comemoramos o Dia Nacional do Escritor! O que seriam dos leitores sem os escritores?! Segue uma poesia minha em homenagem a eles!! Espero que gostem! Bjs! 


Versos em Gotas

É preciso um quê de tristeza para compor.
Em verdade, uma melancolia genuína.
Em que mesmo quando se está feliz, se está triste.
Em que mesmo em meio ao ruído, se é silente.
Uma sensação de consternação.
Uma permanente vigília.
Algo que se não for colocado pra fora
pinica, machuca, fere.
Uma externação que me deixa menos incompleta.




sábado, 18 de julho de 2020

Da Janela da Minha Casa Eu Vejo

Olá pessoal! Hoje segue uma poesia da minha amiga Carmen! Este gerânio da foto é da sua casa! Parabéns e continue inspirada, querida! Bjs!


terça-feira, 23 de junho de 2020

Tentei Mudar o Mundo

Oi pessoal! Tudo bem?! Hoje segue uma poesia minha! Espero que gostem! Bjs!


Tentei Mudar o Mundo

Tentei mudar o mundo,
mas não consegui.
Eram muitos os problemas,
de várias línguas diferentes.
Então tentei mudar meu país.
Também não obtive êxito.
Os problemas eram do tamanho do meu país.
Climas diferentes, tudo muito confuso.
Resolvi tentar mudar somente meu estado,
mas ledo engano.
Cada cidade tinha mais problemas que a outra.
Cada canto funcionava de um jeito mais estranho que o outro.
Pensei então: agora sim vai dar certo,
vou tentar mudar minha cidade!
Já conheço seus problemas de norte a sul;
vou conseguir.
Porém não fui muito longe.
Cada qual reivindicava uma coisa.
As pessoas queriam uma coisa e faziam outra!
Caótico era apelido.
Decidi uma última tentativa:
tentar mudar minha família.
Tomei nota do que havia de errado
e falei com cada um.
Sabe a qual resultado cheguei?
Nenhum.
Ninguém mudou uma vírgula
do que vinha fazendo e falando de errado.
Ah... assim sendo, tentarei me mudar.



domingo, 14 de junho de 2020

Velho Tema II

Velho Tema II

Eu cantarei de amor tão fortemente
Com tal celeuma e com tamanhos brados
Que afinal teus ouvidos, dominados,
Hão de à força escutar quanto eu sustente.

Quero que meu amor se te apresente
- Não andrajoso e mendigando agrados,
Mas tal como é: risonho e sem cuidados,
Muito de altivo, um tanto de insolente.

Nem ele mais a desejar se atreve
Do que merece: eu te amo, e o meu desejo
Apenas cobra um bem que se me deve.

Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo;
E vou de olhos enxutos e alma leve
À galharda conquista do teu beijo.


(Vicente de Carvalho; 1866-1924)

sábado, 30 de maio de 2020

Ela e (ra) a Música

Oi pessoal! Tudo bem?! Hoje segue uma poesia minha! Espero que gostem! Bjs!


Ela e (ra) a Música

Ela não andava e sim flutuava
a um som pelos outros inaudível.
Música era a resposta e,
ao mesmo tempo, a pergunta.
Era sua alegria a mais
(ou tristeza a menos).
Fechava os olhos para melhor ver as notas musicais.
Deixava-se guiar por elas, dançava com elas.
Andava sempre em um ritmo desacelerado.
Ainda há pouco a chamei pelo nome:
Meneou a cabeça, depois virou o corpo
e, antes de tudo, veio o sorriso.




sexta-feira, 8 de maio de 2020

Feliz Dia das Mães

Oi pessoal! Hoje segue uma poesia de Carlos Drummond de Andrade em homenagem às mães!! Bjs!


Para Sempre
Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.